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Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos. E tudo é proibido. Então, falamos. Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os anúncios, os anúncios...

Esse negócio dos anúncios do blog é divertido... agora tem um monte de propaganda de produtos para bebê. E o pior, tem uma daquele produto da Knorr que você coloca no arroz para ele ficar soltinho...

Ou seja, juntando tudo, é o pesadelo da mulher na Terra.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Novas habilidades

Embora eu seja uma seguidora de algumas teorias da conspiração, como a de que estamos caminhando para um terrível Admirável Mundo Novo sem perceber, enxergo algumas vantagens.

Uma delas é a concepção em úteros fora do corpo humano. Ninguém merece parir.

Por outro lado, se os homens tivessem essa oportunidade, seriam mais espertos. A concepção desencadeia novas habilidades. Algumas úteis, outras nem tanto.

1º) Depois de parir, você aprende a suportar outras dores com facilidade.
2º) Depois que o bebê nasce, você desenvolve extremamente sua coordenação motora.

Por absoluta necessidade, aliás. Você aprende a fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, com extrema facilidade! E é capaz de:

- digitar enquanto empurra o carrinho com o pé;
- passar roupa, lavar louça e cozinhar enquanto empurra o carrinho com o pé;
- dar banho, vestir, amamentar a criança enquanto conversa ao telefone.

E sempre falando também com a criança, fazendo beicinhos e tals, para ela não chorar.

Na verdade, já estou mais evoluída. Outro dia minha mãe telefonou enquanto eu fazia o jantar. Cozinhar e falar ao telefone é mole. Mas aí o bebê acordou. Então eu cozinhei, falando ao telefone e com o bebê no colo.

E os New Kids on the Block não conseguiam dançar e tocar um instrumento ao mesmo tempo...

Lenina

Aí eu tenho momentos Lenina e momentos Linda.

São as duas personagens de Admirável Mundo Novo que, para mim, é como um I Ching da vida moderna. Há 70 anos Huxley conseguiu descrever a clonagem. O próximo passo é a concepção em úteros fora do corpo humano e a hipnopedia. Acho sempre que tudo isso está muito perto...

Lenina é a típica representante da sociedade do Mundo Novo. Encaixada na sua posição, horrorizada com tudo o que represente falta de "civilidade", não consegue compreender o amor ou outros conceitos "antigos", já que tudo é tão melhor para todos na civilização.

Linda também era assim, antes de ser abandonada na reserva dos selvagens e parir um filho. Em um trecho do livro, ela se zanga por estar naquele lugar e culpa a criança. Porque se ele não tivesse nascido, ela poderia voltar para a civilização. Mas como voltaria com um filho? E ela começa a bater na criança. De repente para e começa a cobri-lo de beijos. Ou seja, a maternidade, no sentido do conceito amor mãe-filho, fala mais alto, apesar de todo o treinamento hipnopédico.

Lenina ou Linda?

Mothern 2

Quando tive meu primeiro filho, tudo foi estranho. Eu era muito nova, com uma gravidez não planejada... claro que fiquei feliz porque ia ter um bebê. Mas na verdade, não sabia o que isso significava. Enquanto uma parte de mim estava radiante com o bebê no colo, outra ficava gritando tudo que eu estaria perdendo a partir daquele momento.

Agora sei o que significa ter um bebê. Então é diferente.

Com a pequena nos braços, observando seu sono, sinto uma coisa difícil de descrever. Pensei, pensei, e acho que, mais que amor, mais de ternura, é uma sensação de dever cumprido. Como se a minha existência só se justificasse por isso, pela minha reprodução. É gozado, eu não chego a pensar isso, mas eu sinto.

E quanto tive um menino, foi diferente também. Sentia isso, acho que só. Agora, olhando a menina que é a minha cara e que com certeza será uma cópia muito fiel de mim, pensei outra coisa: é como se, depois que eu morrer, eu continuasse na Terra. Claro que não terá a menor importância, porque eu estarei morta. Mas é engraçado como isso é confortante... é a certeza de que, mesmo após eu partir, estarei aqui para ser lembrada, algo assim.

Acho que a felicidade da maternidade é a certeza de um sopro de vida pós-morte. Ter filhos é uma maneira de continuar viva, mesmo que apenas em suas memórias, fotos e vídeos, por pelo menos mais meio século. Simples assim.

Os caçulas

De todas as ansiedades dessa gravidez, a maior era finalmente poder descobrir se as mães gostam mesmo mais dos caçulas. Dúvida eterna, essa. As mães dizem que não, contam a história dos cinco dedos da mão... os filhos têm certeza de que o caçula é o preferido.

E eu teria agora a chance de descobrir.

Meu marido, há séculos, tentou explicar: não é que as mães gostem mais dos caçulas. É que, por serem menores, estão sempre precisando de mais cuidados. E quando crescem, as mães já se habituaram a estar mais preocupadas com eles do que com os outros.

Ainda é cedo, mas acho que já posso opinar. Meu marido estava certo. É tão claro para mim que meu filho de 11 anos pode se virar sozinho enquanto a pequena precisa de tudo... Mas com certeza, meu filho não vê assim. Acho que ele imagina realmente que eu goste mais da pequena. Porque atos sempre falam mais do que palavras...

Mothern

Se você encontrasse uma máquina do tempo, para onde viajaria?

Hoje, gostaria de observar a pré-história. Os homens da caverna. Vi a foto de um bebê recém-nascido com aquele cordão umbilical horrível pendurado e pensei: como as mulheres da pré-história faziam?

Sim, porque bebê é tão delicado... tem que usar água fervida, tem que fazer curativo no umbigo com álcool sei que lá, tem que usar só roupa de algodão, não pode isso, não pode aquilo...

Mas e antes? As gurias tinham o bebê. E aí? Não tinha álcool, nem fogo, por um bom tempo. E quando tinha, duvido que fervessem a água. O que elas faziam com o umbigo? Cortavam com os dentes e comiam até o toco, que nem gato e cachorro?

Acho que faziam o que os bichos fazem, por instinto. E com todas as limitações, a espécie sobreviveu e evoluiu.

Por isso fico achando que tem muita frescura hoje. Bom, óbvio que a taxa de mortalidade infantil devia ser estratosférica. Mas acho que isso também não tinha importância, já que as mulheres deviam parir que nem cadela de rua: uma vez por ano.

E quando morria um filho, o que elas faziam? A "maternidade" ainda não existia (aprendi em Sociologia que o conceito de maternidade como conhecemos, do amor mãe-filho, foi criado em Esparta porque o Estado não podia mais assumir a criação das crianças). Uma vez minha cadela pariu e quando cheguei em casa, muitos filhotes estavam mortos. Alguns destroçados, outros inteiros. Acho que algum cachorro entrou lá e matou os bichinhos. Enfim, tinha um inteiro, parecia que dormia. Eu tentava colocar o coitado no saco de lixo e ela ficava louca. Carregou ele para a casinha, colocou com os vivos e ficou mexendo nele com o focinho, lambendo.

O cachorro é bicho, age por instinto e não conhece conceito nenhum de maternidade, mas eu vi dor nos olhos dela quando, com muito custo, tirei o cachorrinho morto da casinha...

Por isso eu queria ver como era antes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Do you promise?

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!